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saracasticamente

Apanhei sentimentos em algum lado e não sei como curar isto

Hoje não sou eu, a Sara a que estão habituados, a escrever. Sei que vou desiludir-vos mas hoje não há sarcasmo nem humor. Hoje confirmei aquilo de que já andava desconfiada há algum tempo... Ganhei sentimentos. Não sei quando e como aconteceu, mas aconteceu.

 

Trabalho com alguns miúdos institucionalizados e ontem uma das meninas foi adoptada. Seriam boas notícias se ela não tivesse uma irmã que irá continuar na instituição. Não teria sido um dia mau se no dia em que elas receberam a notícia eu não estivesse com elas. A tristeza estampada nos olhos na miúda que não foi adoptada partiu-me o coração. Se eu tinha dúvidas sobre a existência de um coração a bater no meu peito ontem tive a certeza que ele está lá. Porque ontem eu chorei... E pela primeira vez chorei, não por mim, mas por outros. E os outros não eram um animal!

 

Avaliávamos os resultados escolares. Progressos, retrocessos, obstáculos, grau de satisfação pessoal com os resultados, definição de objectivos e plano de acção. Este trabalho é realizado em grupo, pelo que não a podia abordar de forma diferenciada, tinha de cumprir o plano de trabalho.

 

"Tive 8 negativas. Para mim é igual. Nunca serei boa aluna como a minha irmã, nunca terei tantos namorados como ela, nunca gostarão de mim. Portanto... Não faz diferença."

 

O meu coração estilhaçou-se...

E que fiz eu enquanto psicóloga? Nada! Rigorasamente nada.

Não quis abordar a questão à frente dos colegas. Limitei-me a motivá-la sem fazer referência ao que tinha acontecido. Tencionava no final falar a sós com ela.

Mas não consegui. Só desejava que a sessão terminasse rapidamente. Quando os miúdos saíram bati a porta e chorei. Aquela miúda precisava de mim e eu, feita parva, limitei-me a chorar. Falhei com ela. Fui uma psicóloga de merda. E falhei por culpa de uma coisa que eu nem tinha - sentimentos.

 

Fui apanhada por eles... Naquele momento não consegui ser psicóloga. Naquele momento só tive vontade de trazer a miúda para casa! Tive vontade de a abraçar e garantir que tudo ia ficar bem. 

Nunca quis ser mãe, por achar que não seria suficientemente boa nisso. Mas ontem senti que não precisaria de ser muito boa nesse papel para fazer aquela miúda feliz.

 

Durante todo o caminho de regresso a casa pensei na hipótese de um dia adoptar uma criança. Talvez a maternidade para mim passe por aí. E ainda que eu venha também a falhar como mãe tenho a certeza que mesmo assim conseguiria dar a alguns miúdos mais do que aquilo que eles têm.

 

Claro que este é um daqueles projectos que não sairá da fase de planeamento. Nunca ninguém, no seu perfeito juízo, me confiará uma criança! Mas, ainda assim, é um projecto.

E entretanto... Alguém sabe como me posso livrar desta coisa dos sentimentos?!

13 comentários

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    saracasticamente 07.04.2016 10:13

    Mas o problema foi mesmo esse... Eu não estive lá! Eu ignorei a miúda porque não consegui lidar com o que senti. Foi mesmo mau!
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    Andy Bloig 07.04.2016 10:24

    Não terá sido a tua parte racional que bloqueou a psicóloga de falar, pois qualquer coisa que fosses dizer, a rapariga tinha resposta e não a conseguias contrariar?
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    saracasticamente 07.04.2016 10:33

    Eu também não a queria contrariar... Só queria estar lá para ela, confortá-la... Há momentos que não precisamos de dizer nada, e este seria um deles.
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    Andy Bloig 07.04.2016 10:45

    E fizeste isso mesmo. Acabaste por ser mais humana do que estares a dizer-lhe coisas que ela podia levar para algo diferente. Não tens de te sentir mal. Fizeste aquilo que devias. Não podes fazer mais que isso.
    E deixa o resto de lado. Fizeste o que devias. Foste a rapariga que és. Assunto arrumado. Ela está "bem".
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    saracasticamente 07.04.2016 10:47

    Se o que eu devia era não fazer nada então fiz o que devia! :) Mas não me vou martirizar mais por isso. Não posso mudar o que se passou. Vou tentar compensar a próxima vez que estiver com ela.
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    Andy Bloig 07.04.2016 10:49

    É isso que tens de pensar... agora cá estares a martirizar-te por algo que não deves...

    (Nunca te imagines sem sentimentos, rapariga... sem eles, tudo o que sabes deixa de ser válido.)
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    saracasticamente 07.04.2016 10:53

    Gostava mais da vida sem eles... Mas pronto, eles instalaram-se e há que aceitar isso! :)
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    Andy Bloig 07.04.2016 10:55

    É verdade que é melhor... Só é muito mais complicada.

    Enfia-te dentro de um vestido e vai dar uma volta para aproveitares o sol para espaireceres.
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    saracasticamente 07.04.2016 11:04

    Enfiei foi os calções da nívea e vou trabalhar! :)
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    Andy Bloig 07.04.2016 11:08

    Podes incluir a passeata no final do trabalho... se fores para casa antes de anoitecer.
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    saracasticamente 07.04.2016 11:09

    Vou ao cabeleireiro!!
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    Andy Bloig 07.04.2016 11:12

    Diz à cabeleireira que se pode enganar e cortar-te um palmo de cabelo.
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